Esperando Godot
(25 semanas)
Samuel Becket foi um gênio ao escrever esperando Godot. Godot, o personagem mais ausente de toda a história do teatro, é a quem Vladimir e Estragon esperam eternamente na trama absurdista. Mas quem é Godot? - é a pergunta que não quer calar.
Marimir e Christragon também esperam pelo seu Godot, numa história destinada a ser feliz. A eterna espera não durará tanto quanto a de Becket, mas a sensação de aguardo é interminável. A ansiedade bate em muitos momentos e de formas diferentes... às vezes em forma de medo, outras de curiosidade, mas sempre acompanhada de alegria e felicidade. Até o momento de Godot chegar, vamos continuar esperando.
Não sei o que passa pela cabeça de outras mulheres grávidas, mas comigo a ligação cármica que eu tenho com o meu filho é uma constante. Fico imaginando que nós já temos uma história prévia, que na realidade estaremos nos reencontrando e nos reconhecendo depois do nascimento. Penso nisso e tenho uma sensação de familiaridade e estranheza simultâneas. Seja lá o que for que o futuro nos reserve, sinto como se estivesse a espera de um estranho que baterá a minha porta e nunca mais sairá de minha casa. E essa pessoa já tem uma personalidade inata, independente de qualquer educação que eu possa oferecer a ela - e isso me fascina. Penso em mim e nos meus irmão, penso que meus pais também passaram por isso. Penso que até este momento em minha vida, nunca tinha imaginado que eu também pudesse um dia ter sido uma estranha para os que me são mais familiares. E como eu fui amada e querida por eles, em um sentimento tão generoso que removeu de mim a sensação existencial de estranheza - pelo menos dentro dessas relações familiares.
Não tenho dúvidas quanto a ser mãe, mas existe um medo muito grande com o qual eu me deparo de vez enquando. Já perguntei para o Chris, se ele também sente esse medo ao pensar no nosso filho, e ele disse que poucas vezes aconteceu com ele. Na viagem mais profunda da minha filosofia pessoal, vejo-me diante de uma roda-viva. O ciclo que os meus pais viveram um dia, vivo eu agora. Me ponho quase que de igual pra igual com eles, numa projeção de mim. Nesse momento, toda a liberdade que sempre senti, desaparece da minha frente. Mais do que me conectar com o os meus pais, conecto-me com a história do mundo, sentindo-me pequena e sem poder diante dos ciclos da vida. Vejo os artifícios do cotidiano, as distrações, e o medo de ser mais um ser dentro desse ciclo, me invade. Esse medo dura segundos, mas é muito profundo. Compreendo pela primeira vez a escolha que alguns fazem de não ter filhos. A completa preservação da indivudalidade está em não procriar. Não vejo isto como algo melhor ou pior, mas de alguma forma o compromisso com vida, com os pensamentos, com o futuro se modifica de forma irreversível no ato da procriação.
Mas tudo isso faz parte do mundo das idéias. Não sou tão existencialista e filosófica a ponto de transformar esses pensamentos em pessimismo. Tão pouco saio pela vida em completa negação, vivendo a tão sonhada "felicidade" de maneira ingênua e anestesiada. Quero compreender quem sou, e o porque sinto o que sinto. E depois desses segundos de terror, e da entrega consciente da minha liberdade mais íntima, esqueço imediatemente de toda essa filosofia inútil e me refugio na alegria infinita de estar esperando Godot.


Vc descreveu tão bem coisas q senti! Esperar, medo, ligações cármicas, nossos pais, se perder em si mesma. Ser mãe pra mim tem muito de aprender a se recriar! Recrie-se! E aproveite essa chance! É uma delícia! Bj
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