sábado, 10 de dezembro de 2011

 OS MISTÉRIOS DA VIDA
No ventre de uma mulher grávida estavam dois bebês. O primeiro pergunta ao outro:
- Você acredita na vida após o nascimento?

- Certamente. Algo tem de haver após o nascimento. Talvez estejamos aqui principalmente porque nós precisamos nos preparar para o que seremos mais tarde.

- Bobagem, não há vida após o nascimento. Como verdadeiramente seria essa vida?

- Eu não sei exatamente, mas certamente haverá mais luz do que aqui. Talvez caminhemos com nossos próprios pés e comeremos com a boca.

- Isso é um absurdo! Caminhar é impossível. E comer com a boca? É totalmente ridículo! O cordão umbilical nos alimenta. Eu digo somente uma coisa: A vida após o nascimento está excluída - o cordão umbilical é muito curto.

- Na verdade, certamente há algo. Talvez seja apenas um pouco diferente do que estamos habituados a ter aqui.

- Mas ninguém nunca voltou de lá, depois do nascimento. O parto apenas encerra a vida. E afinal de contas, a vida é nada mais do que a angústia prolongada na escuridão.

- Bem, eu não sei exatamente como será depois do nascimento, mas com certeza veremos a mamãe e ela cuidará de nós.

- Mamãe? Você acredita na mamãe? E onde ela supostamente está?

- Onde? Em tudo à nossa volta! Nela e através dela nós vivemos. Sem ela tudo isso não existiria.

- Eu não acredito! Eu nunca vi nenhuma mamãe, por isso é claro que não existe nenhuma.

- Bem, mas às vezes quando estamos em silêncio, você pode ouvi-la cantando, ou sente, como ela afaga nosso mundo. Saiba, eu penso que só então a vida real nos espera e agora apenas estamos nos preparando para ela...

(autor desconhecido)


Minha barriga aos 7 meses

domingo, 13 de novembro de 2011

 Esperando Godot 
(25 semanas)

Samuel Becket foi um gênio ao escrever esperando Godot. Godot, o personagem mais ausente de toda a história do teatro, é a quem Vladimir e Estragon esperam eternamente na trama absurdista. Mas quem é Godot? - é a pergunta que não quer calar.

Marimir e Christragon também esperam pelo seu Godot, numa história destinada a ser feliz. A eterna espera não durará tanto quanto a de Becket, mas a sensação de aguardo é interminável. A ansiedade bate em muitos momentos e de formas diferentes... às vezes em forma de medo, outras de curiosidade, mas sempre acompanhada de alegria e felicidade. Até o momento de Godot chegar, vamos continuar esperando.  


Não sei o que passa pela cabeça de outras mulheres grávidas, mas comigo a ligação cármica que eu tenho com o meu filho é uma constante. Fico imaginando que nós já temos uma história prévia, que na realidade estaremos nos reencontrando e nos reconhecendo depois do nascimento. Penso nisso e tenho uma sensação de familiaridade e estranheza simultâneas. Seja lá o que for que o futuro nos reserve, sinto como se estivesse a espera de um estranho que baterá a minha porta e nunca mais sairá de minha casa. E essa pessoa já tem uma personalidade inata, independente de qualquer educação que eu possa oferecer a ela - e isso me fascina. Penso em mim e nos meus irmão, penso que meus pais também passaram por isso. Penso que até este momento em minha vida, nunca tinha imaginado que eu também pudesse um dia ter sido uma estranha para os que me são mais familiares. E como eu fui amada e querida por eles, em um sentimento tão generoso que removeu de mim a sensação existencial de estranheza - pelo menos dentro dessas relações familiares.

Não tenho dúvidas quanto a ser mãe, mas existe um medo muito grande com o qual eu me deparo de vez enquando. Já perguntei para o Chris, se ele também sente esse medo ao pensar no nosso filho, e ele disse que poucas vezes aconteceu com ele. Na viagem mais profunda da minha filosofia pessoal, vejo-me diante de uma roda-viva. O ciclo que os meus pais viveram um dia, vivo eu agora. Me ponho quase que de igual pra igual com eles, numa projeção de mim. Nesse momento, toda a liberdade que sempre senti, desaparece da minha frente. Mais do que me conectar com o os meus pais, conecto-me com a história do mundo, sentindo-me pequena e sem poder diante dos ciclos da vida. Vejo os artifícios do cotidiano, as distrações, e o medo de ser mais um ser dentro desse ciclo, me invade. Esse medo dura segundos, mas é muito profundo. Compreendo pela primeira vez a escolha que alguns fazem de não ter filhos. A completa preservação da indivudalidade está em não procriar. Não vejo isto como algo melhor ou pior, mas de alguma forma o compromisso com vida, com os pensamentos, com o futuro se modifica de forma irreversível no ato da procriação. 
 
Mas tudo isso faz parte do mundo das idéias. Não sou tão existencialista e filosófica a ponto de transformar esses pensamentos em pessimismo. Tão pouco saio pela vida em completa negação, vivendo a tão sonhada "felicidade" de maneira ingênua e anestesiada. Quero compreender quem sou, e o porque sinto o que sinto. E depois desses segundos de terror, e da entrega consciente da minha liberdade mais íntima, esqueço imediatemente de toda essa filosofia inútil e me refugio na alegria infinita de estar esperando Godot. 



sábado, 5 de novembro de 2011

Pois É    (6 meses - ou 24 semanas)


O próprio nome já se impunha, e subliminarmente nos avisava. Falhei em confiar nos meus primeiros instintos...  - para os que estão pegando o bonde andando, PoisÉ era o nome fictício que eu e o Chris tínhamos selecionado no caso da barriga ser menino, e, PoxaVida, no caso de ser menina. Depois do ultrasson da semana passada, foi dado o veredito: é PoisÉ. A PoxaVida, poxa vida, vai ter que ficar para a próxima rodada - como o próprio nome já propunha.

Desde adolescente meus sonhos de maternidade eram geralmente com meninos; sempre senti que seria mãe de um.  Quando fiquei grávida, minha primeira impressão continuava a mesma, mas - nessas horas nunca se sabe, não é? - tentei não criar nenhuma expectativa. E assim passei os dois primeiros meses, me vigiando para não tomar nenhum partido. Contudo, diante de dois outros sobrinhos, o desejo de ter uma menina começou a se manifestar fortemente em toda a minha família. Avós, tios e primos começaram a cultivar uma certeza quase que premonitiva a respeito do sexo do bebê, e com o tempo, passei eu também a imaginar como seria criar uma menininha, namorando roupinhas com lacinhos, sainhas, rendinhas,  e indignada com a quantidade de cor-de-rosa disponível no mercado.

Mas o ultrasson foi nítido: era menino. A médica fez o maior suspense, e só depois de todas as medidas tiradas, que ela veio perguntar com um entusiasmo quase óbvio: "Você consegue ver o sexo do bebê? Esse é fácil de determinar." Mas na minha viagem psicológica, eu não conseguia ver absolutamente nada. Eu olhava e olhava para o monitor do ultrasson como quem olha para uma obra de arte abstrata. Tentava achar as perninhas, mas como o bebê tinha mudado completamente de posição durante o curso do exame, eu estava ainda mais confusa, sem saber o que estava vendo de fato. Só depois de um longo silêncio, e da confirmação da minha ignorância, é que, com o dedo indicador, a doutora se pronuciou de forma didática, esboçando sobre as imagens do monitor, o pênis e os testículos do meu filho.

Foi uma alegria enorme e, ao mesmo tempo, um alívio descobrir o sexo do bebê. Contudo algo dentro de mim, algo que havia sido cultivado durante meses, e inclusive verbalizado entre tantas pessoas, sentiu-se traído. Levei uma semana para começar a re-processar o fato de que estou à espera de um filho homem. Dei-me conta disso apenas ontem, quando, sem querer, me peguei pesquisando na internet os procedimentos para furar a orelha de um bebê. No meio da pesquisa é que percebi a minha loucura, e compreendi o verdadeiro impacto da notícia. Sozinha em minha casa, falei em voz alta: "Mas o que eu estou fazendo? Você não tem mais que se preocupar com isso, Mariana, seu filho é homem. HO-MEM!" E encerrei o assunto dando dois tapinhas na minha própria cara, um em cada bochecha, como quem diz: "Acorda pra vida!"

Agora me sinto mais conectada com a realidade dos fatos. Cresci com dois irmãos e sempre gostei de estar ao redor de homens, e com isso em mente, comecei a imaginar a criação de um menino. Vai ser muito bom ser a rainha da casa por mais algum tempo. O PoisÉ está mudando de nome agora, apesar de que, oficialmente, só saberemos mesmo ao olhar para a carinha dele.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

 5 meses (20 semanas)

Tudo azul. Passou-se o cansaço, as manias, os enjôos freqüentes, e a preguiça eterna. Estou de volta a ativa. Parece que toda aquela paralisação dos primeiros meses vem para fazer-nos entender que não há como controlar a natureza, e a mensagem é tão bem passada, que ao nos reencontrarmos com nós mesmas durante o segudo trimestre da gestação, a vida toma uma nova forma - acompanhada do nosso corpo, que também ganha novas proporções.

É extraordinário. Minha barriga cresceu muito nas últimas duas semanas (e como sempre, a foto parece mostrar menos do que a realidade). Junto com a barriga, vêm os primeiros chutinhos do bebê, algo indescritível. Muito suavemente, essa vidinha que me habita, começa a se manifestar de forma muito privada. Quem dera eu pudesse dividir isso ao menos com o meu parceiro. Mas não, por enquanto, só eu sei o que se passa aqui dentro. 


A felicidade existe nas pequenas coisas.





terça-feira, 6 de setembro de 2011

15 semanas

Todo mundo fica ansioso para ver a barriga crescer logo. Mas infelizmente as coisas não são bem assim, há que se ter muita paciência, principalmente na primeira gravidez. O corpo da mulher grávida passa por muitas mudanças, mas a barriga que é bom, só começa mesmo a aparecer depois da 16ª semana - em alguns casos, até mais tarde. 

Portanto galera, aqui estão as fotos para matar a curiosidade do povo, mas tenham calma, pois estamos sem pressa nenhuma :)



segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Hoje é dia de pomarola
 

Sempre fui louca por tomates. Desde adolescente, se há um alimento que não me enjôa nunca, é o tomate. No mais, passei por muitas outras fases: viciada em beringela, beterraba, abobrinha, vagem, gelatina, melão... sempre uma coisa ou outra, porém, passageira, pois depois de algum tempo comendo repetidas vezes os mesmos alimentos, ficava difícil até olhar para eles. Aliás, confesso que essas "fases" eram, em realidade, uma tendência compulsivo-obecessiva da minha adolescência.

Os anos se passaram, e, apesar de eu ter superado a ferocidade dessas tendências compulsivas, alguns resquícios ainda ficam. Ao invés das complexas "fases" de antigamente, hoje apenas considero que alguns alimentos entram e saem de moda no meu cardápio.

Quem me conhece bem, sabe que eu não sou de massas ou doces, meu negócio é mesmo: carnes, saladas, queijos, embutidos, legumes e frutas cítricas; ou pelo menos era... A gravidez está tendo um impacto tão profundo sobre a minha relação com a comida, que nem eu me reconheço mais. Levei tantos anos para apurar e desenvolver a minha identidade alimentícia, que me gera muita frustração não conseguir comer as coisas que gosto. Sinto fome, mas o meu apetite não é o mesmo.

Não sei até que ponto todas as mulheres grávidas passam por isso, mas, comigo, esses três primeiros meses, foram de muito enjôo. A mudança foi brusca, pois comer se tornou um estorvo para mim. Os cheiros me causam ansia, o gosto das comidas também mudaram completamente ao meu paladar. Para que tenham uma idéia, não consigo mais comer carne pura, como um bife por exemplo, pois o gosto me é revoltante. Nesse caso, preciso do auxilio de molhos bem ricos, para camuflar o gosto da carne. Isso também vale para carne de peixe e frango, que, hoje em dia, tem que estar confinada a tortas e guisados. 

Se um dia eu não acreditei em desejo de mulher grávida, hoje eu acredito. Só que estes tais desejos são mais uma necessidade fisiológica do que qualquer coisa: é a luta pela sobrevivência! Depois de dois meses sem comer direito - nos quais eu inclusive perdi peso por um tempo -, um belo dia encarei a minha frustração com a seguinte pergunta: o que eu desejo comer? E depois de uma confabulação entre paladar, esôfago e estômago, chegamos à conclusão de que o que eu queria mesmo era pizza e sorvete. Fomos lá, eu e o Chris, fazer supermecado às 23hrs... - Agora, você deve estar imaginando aquela pizza, maravilhosa, forno à lenha, bibibi bobobó. Não, não... Para o meu próprio terror, a minha boca estava para a pizza mais barata, vendida na loja mais barata, dessas que imitam Pizza Hut, mas só que um pouco pior. Felizmente meus desejos tem sido deste nível, e não aquelas bizarrices de mascar esponjas, saborear terra, deglutir pasta de dentes, giz, cal, sabão, gelo, que se lê por aí. 

Felizmente, existe o tomate para me consolar - o único alimento que o meu organismo não cansegue rejeitar. E, é com uma alegria imensa, que, hoje, eu olho para a lata de pomarola e sei que, no fundo no fundo, eu ainda existo!

sábado, 20 de agosto de 2011

São gêmeos? 

"Poxa Vida" e "Pois É" eram os nomes fictícios que eu e o Chris tínhamos reservado para os gêmeos. Confesso que o desejo de ter gêmeos provinha de uma mistura de ansiedade, preguiça e preocupação: ansiedade, para ter a família completa o mais rápido possível; preguiça, por ter que esperar mais dois anos para começar tudo outra vez; e preocupacão, pois quanto mais o tempo passa, maiores são os riscos numa gravidez. Diziam que eu era louca por querer gêmeos, que o trabalho dobrado seria inimaginavelmente cansativo. Mas, o fato é que, dureza por dureza, um bebê, sozinho, já é o suficiente para mudar por completo a rotina e estrutura emocional de um casal. Por que não dois? - "Deus, por favor, fecha a conta e passa a régua?"

Modelo de um feto na 12º semana - by Donna Lee
Recentemente passamos pelo nosso primeiro ultrasson. Foi realmente o dia mais feliz da minha vida. Quando, de imediato, vi aquele bebezinho deitado dentro do meu útero, senti um frio na barriga. Foi algo hipnotizante; uma mistura de alegria, surpresa, amor, estranhamento, ansiedade...  E ao mesmo tempo que a gente se entrega àquele momento, (constatando o óbvio - "estou realmente grávida!"), o médico começa a identificar os órgãos do bebê, medindo cada parte, e a procurando sinais que possam conduzir a algum possível problema no desenvolvimento do feto. Querendo ou não, a tensão é inevitável. Entre uma medida e outra, o bebê esticava as perninhas, levantava os braços, abria os dedinhos, dava chutes no ar, como se estivesse fazendo gols de bicicleta, ou dançando um rock progressivo. Inacreditável. Até aquele momento, eu nunca havia imaginado que pudesse haver tanta atividade dentro do meu útero. E, quando menos esperávamos, o bebê virava de costas e se encolhia todo, ficando bem quietinho. Parecia um jogo. Levamos uma hora inteira para conseguir verificar tudo o que precisávamos. Algo indescritívelmente emocionante. 

Depois de tudo - inclusive de ouvir o coraçãozinho disparado do nosso filho! -,  a combinação de todos os exames determinou que o bebê está aparentemente perfeito. Sem fatalismos da nossa parte, nossas preocupações provinham de um vírus com qual eu tive contato entre a 5ª e 6ª semanas de gestação, que acarretou em severas reações alérgicas no meu organismo - algo que pertence ao passado agora.

"Pois é" ou "Poxa Vida"? Façam suas apostas.
Hoje, quando eu deito relaxada na minha cama, sei que é apenas um, o hóspede abrigado no meu baixo-ventre. O sonho de ter gêmeos, parece que nunca existiu, pois só tenho pensamentos para aquela criaturinha que eu vi na tela do ultrasson. Fico imaginando ela dando saltos-mortais dentro do líquido semiótico, lembrando dos bracinhos esticados, dos dedinhos abertos, e imagino que meu filho está acenando para mim. 



sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Finalmente - (12 semanas)

Pois é, se dependesse da hora certa, a gente não engravidaria nunca! 

Minhas amigas todas estão nos trinta (ou quase lá) e muitas delas sentem que falta um bom chão até chegar a hora certa de ter um filho. Para algumas, é a questão financeira, para outras, a falta de estabilidade no relacionamento ou na carreira as impede de dar esse grande passo. Seja o que for, é de se compreender, pois um filho faz mudar por completo o sentido da nossa vida.

Minha vida já mudou. Por fora, não se vê grande coisa, mas por dentro, desde o primeiro instante, desde a concepção do bebê, a metamorfose começa. E à medida que os nossos hormônios vão tomando conta, e o nosso corpo vai correspondendo a eles, a cabeça começa a mudar também. É algo indescritível, um presente divido, eu diria. Contudo, apesar de toda a magnitude desse momento, essas mudanças também vêm acompanhadas de muitos desconfortos, preocupações e incertezas. Começa aí a vida da mãe.

Desde os meus 27 anos, sinto um desejo latente de ter filhos. Por muitas razões isso só veio a contecer agora, aos meus 33 anos - confirmação de que a vida nem sempre segue o curso que se espera... E hoje eu lembro de quando eu era uma adolescente e dizia: aos 22 anos vou casar, e aos 24 começar a ter filhos. Santa inocência... Casei aos 26, me separei aos 30. Para isso, eu não estava preparada. E o destino me levou por tantas veredas, e, por terra, caíram tantos dos meus sonhos infantis. Mas Graças a Deus, com a experiência, ganhamos também maturidade, e, com os pés bem fincados no chão, vivo e luto por cada instante de plenitude, com uma ferocidade de leão.


 Sonhar ainda é possível, mas com os olhos bem fixos no presente, que nos revela mistérios e milagres a cada dia.