domingo, 13 de novembro de 2011

 Esperando Godot 
(25 semanas)

Samuel Becket foi um gênio ao escrever esperando Godot. Godot, o personagem mais ausente de toda a história do teatro, é a quem Vladimir e Estragon esperam eternamente na trama absurdista. Mas quem é Godot? - é a pergunta que não quer calar.

Marimir e Christragon também esperam pelo seu Godot, numa história destinada a ser feliz. A eterna espera não durará tanto quanto a de Becket, mas a sensação de aguardo é interminável. A ansiedade bate em muitos momentos e de formas diferentes... às vezes em forma de medo, outras de curiosidade, mas sempre acompanhada de alegria e felicidade. Até o momento de Godot chegar, vamos continuar esperando.  


Não sei o que passa pela cabeça de outras mulheres grávidas, mas comigo a ligação cármica que eu tenho com o meu filho é uma constante. Fico imaginando que nós já temos uma história prévia, que na realidade estaremos nos reencontrando e nos reconhecendo depois do nascimento. Penso nisso e tenho uma sensação de familiaridade e estranheza simultâneas. Seja lá o que for que o futuro nos reserve, sinto como se estivesse a espera de um estranho que baterá a minha porta e nunca mais sairá de minha casa. E essa pessoa já tem uma personalidade inata, independente de qualquer educação que eu possa oferecer a ela - e isso me fascina. Penso em mim e nos meus irmão, penso que meus pais também passaram por isso. Penso que até este momento em minha vida, nunca tinha imaginado que eu também pudesse um dia ter sido uma estranha para os que me são mais familiares. E como eu fui amada e querida por eles, em um sentimento tão generoso que removeu de mim a sensação existencial de estranheza - pelo menos dentro dessas relações familiares.

Não tenho dúvidas quanto a ser mãe, mas existe um medo muito grande com o qual eu me deparo de vez enquando. Já perguntei para o Chris, se ele também sente esse medo ao pensar no nosso filho, e ele disse que poucas vezes aconteceu com ele. Na viagem mais profunda da minha filosofia pessoal, vejo-me diante de uma roda-viva. O ciclo que os meus pais viveram um dia, vivo eu agora. Me ponho quase que de igual pra igual com eles, numa projeção de mim. Nesse momento, toda a liberdade que sempre senti, desaparece da minha frente. Mais do que me conectar com o os meus pais, conecto-me com a história do mundo, sentindo-me pequena e sem poder diante dos ciclos da vida. Vejo os artifícios do cotidiano, as distrações, e o medo de ser mais um ser dentro desse ciclo, me invade. Esse medo dura segundos, mas é muito profundo. Compreendo pela primeira vez a escolha que alguns fazem de não ter filhos. A completa preservação da indivudalidade está em não procriar. Não vejo isto como algo melhor ou pior, mas de alguma forma o compromisso com vida, com os pensamentos, com o futuro se modifica de forma irreversível no ato da procriação. 
 
Mas tudo isso faz parte do mundo das idéias. Não sou tão existencialista e filosófica a ponto de transformar esses pensamentos em pessimismo. Tão pouco saio pela vida em completa negação, vivendo a tão sonhada "felicidade" de maneira ingênua e anestesiada. Quero compreender quem sou, e o porque sinto o que sinto. E depois desses segundos de terror, e da entrega consciente da minha liberdade mais íntima, esqueço imediatemente de toda essa filosofia inútil e me refugio na alegria infinita de estar esperando Godot. 



sábado, 5 de novembro de 2011

Pois É    (6 meses - ou 24 semanas)


O próprio nome já se impunha, e subliminarmente nos avisava. Falhei em confiar nos meus primeiros instintos...  - para os que estão pegando o bonde andando, PoisÉ era o nome fictício que eu e o Chris tínhamos selecionado no caso da barriga ser menino, e, PoxaVida, no caso de ser menina. Depois do ultrasson da semana passada, foi dado o veredito: é PoisÉ. A PoxaVida, poxa vida, vai ter que ficar para a próxima rodada - como o próprio nome já propunha.

Desde adolescente meus sonhos de maternidade eram geralmente com meninos; sempre senti que seria mãe de um.  Quando fiquei grávida, minha primeira impressão continuava a mesma, mas - nessas horas nunca se sabe, não é? - tentei não criar nenhuma expectativa. E assim passei os dois primeiros meses, me vigiando para não tomar nenhum partido. Contudo, diante de dois outros sobrinhos, o desejo de ter uma menina começou a se manifestar fortemente em toda a minha família. Avós, tios e primos começaram a cultivar uma certeza quase que premonitiva a respeito do sexo do bebê, e com o tempo, passei eu também a imaginar como seria criar uma menininha, namorando roupinhas com lacinhos, sainhas, rendinhas,  e indignada com a quantidade de cor-de-rosa disponível no mercado.

Mas o ultrasson foi nítido: era menino. A médica fez o maior suspense, e só depois de todas as medidas tiradas, que ela veio perguntar com um entusiasmo quase óbvio: "Você consegue ver o sexo do bebê? Esse é fácil de determinar." Mas na minha viagem psicológica, eu não conseguia ver absolutamente nada. Eu olhava e olhava para o monitor do ultrasson como quem olha para uma obra de arte abstrata. Tentava achar as perninhas, mas como o bebê tinha mudado completamente de posição durante o curso do exame, eu estava ainda mais confusa, sem saber o que estava vendo de fato. Só depois de um longo silêncio, e da confirmação da minha ignorância, é que, com o dedo indicador, a doutora se pronuciou de forma didática, esboçando sobre as imagens do monitor, o pênis e os testículos do meu filho.

Foi uma alegria enorme e, ao mesmo tempo, um alívio descobrir o sexo do bebê. Contudo algo dentro de mim, algo que havia sido cultivado durante meses, e inclusive verbalizado entre tantas pessoas, sentiu-se traído. Levei uma semana para começar a re-processar o fato de que estou à espera de um filho homem. Dei-me conta disso apenas ontem, quando, sem querer, me peguei pesquisando na internet os procedimentos para furar a orelha de um bebê. No meio da pesquisa é que percebi a minha loucura, e compreendi o verdadeiro impacto da notícia. Sozinha em minha casa, falei em voz alta: "Mas o que eu estou fazendo? Você não tem mais que se preocupar com isso, Mariana, seu filho é homem. HO-MEM!" E encerrei o assunto dando dois tapinhas na minha própria cara, um em cada bochecha, como quem diz: "Acorda pra vida!"

Agora me sinto mais conectada com a realidade dos fatos. Cresci com dois irmãos e sempre gostei de estar ao redor de homens, e com isso em mente, comecei a imaginar a criação de um menino. Vai ser muito bom ser a rainha da casa por mais algum tempo. O PoisÉ está mudando de nome agora, apesar de que, oficialmente, só saberemos mesmo ao olhar para a carinha dele.